Simulando Financiamento de Imóvel: A Verdade que o Banco Não Conta
Atualizado em 29 de Novembro de 2025 | Leitura: aproximadamente 18 minutos
Você está em um estande de vendas de um novo empreendimento. O corretor mostra um apartamento lindo, 2 quartos, varanda, churrasqueira na área comum. O valor: R$ 350.000. Você diz: “Não tenho esse dinheiro”. Ele responde: “Mas financia em 360 meses,parcela de R$ 2.800! Fica super tranquilo no seu orçamento.” Na hora, parece bom. Mas será que é mesmo?
História real: “Comprei um apartamento de R$ 280.000 em 2018, financiei 80% em 30 anos. Parcela inicial de R$ 2.100. Achava que tava ótimo. Daqui a 5 anos, minha parcela subiu para R$ 2.800 por causa da variação do TR. Paguei mais de R$ 50.000 e o saldo devedor caiu apenas R$ 8.000. Me sinto preso nesse financiamento. Se soubesse o que sei hoje, teria feito tudo diferente.”
Este guia vai mostrar exatamente como o financiamento imobiliário funciona, as diferenças entre SAC e Price, o que é CET, como os juros compostos atuam nas parcelas, as pegadinhas que os bancos usam e, mais importante, como simular corretamente antes de se comprometer. O princípio é simples: imóvel bom é imóvel que você consegue pagar sem se endividar.
Financiamento Imobiliário: O que é e como funciona de verdade?
Financiamento imobiliário é um empréstimo de longo prazo que o banco faz para você comprar um imóvel. O imóvel fica como garantia (hipoteca) até você pagar tudo. Se não pagar, o banco pode tomar o imóvel e levar a leilão.
As partes de um financiamento
- Valor do imóvel: o preço de venda;
- Entrada (down payment): porcentagem que você dá de cara. Bancos normalmente financiam até 80% do valor;
- Valor financiado: o que o banco empresta;
- Prazo: quanto tempo você vai pagar (15, 20, 30, 35 anos);
- Taxa de juros: o “aluguel” do dinheiro (ex: 10% ao ano);
- Sistema de amortização: como as parcelas são calculadas (SAC ou Price);
- CET (Custo Efetivo Total): o custo real da operação (juros + taxas + seguros).
Atenção: O banco não vende imóvel. Ele vende dinheiro caro. O imóvel é apenas a garantia. Você acha que está comprando casa, mas na verdade está comprando dívida.
SAC vs Price: A Diferença que Muda Sua Vida
Esses são os dois sistemas de amortização mais usados no Brasil. Cada um tem vantagens e armadilhas.
SAC (Sistema de Amortização Constante)
No SAC, você paga a mesma quantidade de amortização (abate do valor principal) todo mês. As parcelas começam altas e vão diminuindo porque os juros caem conforme o saldo devedor diminui.
Exemplo SAC: R$ 200.000 em 20 anos (240 meses) a 10% ao ano
Amortização mensal: R$ 200.000 ÷ 240 = R$ 833,33
Juros no 1º mês: R$ 200.000 × (10% ÷ 12) = R$ 1.666,67
Parcela 1: R$ 833,33 + R$ 1.666,67 = R$ 2.500,00
Parcela 120 (metade): saldo devedor ~R$ 100.000, juros ~R$ 833, parcela ~R$ 1.666
Parcela 240 (última): saldo devedor ~R$ 833, juros ~R$ 7, parcela ~R$ 840
Vantagens do SAC: você paga menos juros no total; parcelas diminuem com o tempo (alivia o orçamento futuro); saldo devedor cai mais rápido.
Desvantagens: parcela inicial muito alta; pode estourar seu orçamento nos primeiros anos.
Price (Sistema Francês de Amortização)
No Price, as parcelas são iguais durante todo o financiamento. No começo você paga muito juros e pouca amortização. No final, pouco juros e muita amortização.
Exemplo Price: R$ 200.000 em 20 anos a 10% ao ano
Parcela fixa calculada pela fórmula: R$ 1.925,00 (aproximadamente)
Parcela 1: R$ 1.666,67 de juros + R$ 258,33 de amortização
Parcela 120: R$ 1.000 de juros + R$ 925 de amortização
Parcela 240: R$ 50 de juros + R$ 1.875 de amortização
Vantagens do Price: parcela inicial menor (mais “acessível”); previsibilidade total (sabe exato quanto vai pagar sempre).
Desvantagens: você paga muito mais juros no total; amortiza o imóvel muito devagar; se quiser vender no meio, descobre que ainda deve quase tudo.
Comparação SAC vs Price
| Item | SAC | Price |
|---|---|---|
| Parcela inicial | R$ 2.500,00 | R$ 1.925,00 |
| Parcela final | R$ 840,00 | R$ 1.925,00 |
| Total pago (240 meses) | R$ 402.000,00 | R$ 462.000,00 |
| Total de juros | R$ 202.000,00 | R$ 262.000,00 |
| Saldo devedor após 10 anos | R$ 100.000,00 | R$ 140.000,00 |
Com o Price, você paga R$ 60.000 a mais em juros. Por isso bancos amam Price e empurram para todo mundo.
CET: O Custo Efetivo Total que o Banco Esconde
Quando você simula um financiamento, o banco mostra a taxa de juros (ex: 10% ao ano). Mas isso não é o custo real. O custo real é o CET (Custo Efetivo Total), que inclui:
- Taxa de juros (aquela que eles mostram);
- Taxa de abertura de crédito (TAC);
- Taxa de avaliação do imóvel;
- Seguro de vida (muito caro);
- Seguro do imóvel (incêndio);
- Taxa de administração;
- IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).
⚠️ Cuidado: O CET pode ser 2-3 pontos percentuais acima da taxa de juros anunciada. Um financiamento de 10% ao ano pode ter CET de 13% ao ano. Na simulação, isso aumenta a parcela em centenas de reais.
Simulação: CET de um financiamento de R$ 250.000
Valor financiado: R$ 250.000 | Prazo: 30 anos (360 meses) | Taxa anunciada: 10% ao ano
O CET fez a parcela subir R$ 217,00 (10% a mais). Em 30 anos, você paga R$ 78.120 a mais por causa dessas taxas.
Financiamento com FGTS: O que vale e o que não vale
O FGTS pode ser usado para dar entrada, amortizar a dívida ou reduzir a parcela. Tem regras específicas:
Quem pode usar FGTS no financiamento:
- Trabalhador com conta ativa ou inativa do FGTS;
- Não ter financiamento ativo pelo SFH (Sistema Financeiro da Habitação);
- Não ter outro imóvel próprio financiado com FGTS;
- Imóvel deve estar na faixa de valor máximo do SFH (varia por cidade, geralmente R$ 350.000-R$ 450.000).
Como usar o FGTS:
- Na entrada: pode usar até 80% do saldo da conta para dar entrada;
- Amortização: pode amortizar a dívida a cada 2 anos, usando até 80% do saldo;
- Redução de parcela: pode usar FGTS para reduzir a parcela mensal, mantendo o prazo.
Simulação: usando FGTS de R$ 40.000
Valor do imóvel: R$ 300.000 | Entrada (20%): R$ 60.000 | Financiado: R$ 240.000
Sem FGTS: parcela SAC inicial R$ 3.000
Com FGTS de R$ 40.000 na entrada: financiado R$ 200.000, parcela inicial R$ 2.500
Economia mensal: R$ 500 (16,6% menor)
Importante: FGTS não é dinheiro grátis. É seu dinheiro retido pelo governo. Usá-lo é ótimo, mas lembre-se que você está usando suas economias.
Financiamento vs Consórcio: Qual vale mais a pena?
Consórcio é uma modalidade onde você junta com outras pessoas, paga parcelas mensais e eventualmente é contemplado (por lance ou sorte) para receber o crédito.
Vantagens do consórcio:
- Não paga juros (só taxa de administração);
- Prestação geralmente mais baixa que financiamento;
- Pode dar lance e acelerar contemplação.
Desvantagens do consórcio:
- Não tem garantia de quando vai ser contemplado;
- Se demora, você paga parcelas por anos sem ter o imóvel;
- Se precisa comprar agora, consórcio não serve;
- Taxa de administração pode ser alta (2-3% ao ano).
| Item | Financiamento | Consórcio |
|---|---|---|
| Juros | Sim (10-12% ao ano) | Não (só taxa adm) |
| Prazo para ter o imóvel | Imediato (após aprovação) | Incerto (pode demorar anos) |
| Prestação inicial | Alta | Baixa |
| Total pago no final | Muito alto (dobro do valor) | Valor do imóvel + taxa adm |
| Melhor para | Quem precisa comprar agora | Quem pode esperar e quer economizar |
Simulação Completa: Financiamento de R$ 300.000
Vamos simular um financiamento realista para você ver os números:
Dados do financiamento
Valor do imóvel: R$ 300.000 | Entrada (20%): R$ 60.000 | Valor financiado: R$ 240.000
Prazo: 30 anos (360 meses) | Taxa de juros: 11% ao ano | CET: 13% ao ano
Sistema: SAC | Parcela inicial: R$ 2.620,00 | Parcela final: R$ 880,00
Primeiros 12 meses (SAC)
Depois de 1 ano e R$ 30.720 pagos, você apenas abateu R$ 8.000 do principal. Os outros R$ 22.720 foram só juros. É assim que o banco fica rico.
Primeiros 60 meses (5 anos)
Em 5 anos, você pagou R$ 144.000, mas apenas R$ 40.000 foram para abater o imóvel. R$ 104.000 foram juros. Ainda deve R$ 200.000. Se precisar vender o imóvel agora, provavelmente vai ter que colocar dinheiro do bolso para quitar o banco.
Simulação completa (30 anos)
O imóvel de R$ 300.000 vai custar R$ 622.000 quando terminar de pagar. Você paga o dobro.
As Pegadinhas que os Bancos Usam (e você não percebe)
1. Oferecem prazo muito longo para “baixar a parcela”
Um prazo maior diminui a parcela, mas aumenta muito o total de juros pagos. Bancos empurram 35-40 anos porque sabem que você olha só a parcela, não o custo total.
2. Escondem o CET
Mostram a taxa de juros bonita, mas não falam nas taxas de seguro, administração, avaliação. O CET pode ser 2-3 pontos maior, mas não está no destaque.
3. Usam a “facilidade” de parcela fixa (Price)
O Price parece mais fácil porque a parcela não muda. Mas você paga muito mais juros. Bancos empurram Price porque é mais lucrativo para eles.
4. Oferecem “desconto na taxa” mas cobram taxas altas de abertura
“Taxa de juros de 9% ao ano!” mas TAC de R$ 5.000,00. No final, o CET é 12% ao ano. Você só descobre depois que assinou.
5. Não explicam o impacto do TR ou IGPM
Se você financiou ligado ao TR (Taxa Referencial) ou IGPM, as parcelas podem aumentar muito quando esses índices sobem. Bancos falam “pode aumentar ou diminuir” mas na prática, sempre aumenta.
6. Condicionam a liberação ao seguro de vida caro
O seguro de vida é obrigatório? Tecnicamente não. Mas se você não contratar pelo banco, eles “reavaliam o risco” e aumentam a taxa de juros. Resultado: você paga o seguro caro mesmo.
Como Simular Corretamente Antes de Fechar
Passo 1: Use simuladores reais, não os do banco
Os simuladores dos bancos mostram apenas a parcela inicial, não o custo total. Use simuladores independentes que mostrem:
- Parcela ao longo dos anos;
- Total de juros pagos;
- Saldo devedor após 5, 10, 15 anos;
- Impacto do CET.
Passo 2: Simule cenários adversos
Não simule apenas a parcela inicial. Simule:
- Se a taxa subir 2 pontos (para 12% ao ano);
- Se o TR ou IGPM subir 50%;
- Se você perder o emprego por 6 meses.
Passo 3: Calcule o custo total (não só a parcela)
Multiplique a parcela pelo número de meses. Some a entrada, taxas, seguros. Esse é o verdadeiro custo do imóvel.
Passo 4: Compare com aluguel + investimento
Às vezes, alugar um imóvel similar e investir a diferença pode ser mais vantajoso. Simule:
- Aluguel de imóvel similar: R$ 1.800/mês;
- Diferença para investir: R$ 1.000/mês;
- Investir em Tesouro IPCA+ por 20 anos.
Passo 5: Leia o contrato inteiro (sim, todas as 50 páginas)
Não assine sem ler. Preste atenção em:
- Cláusula de correção de parcelas (TR, IGPM, INCC);
- Multa por atraso (2-4% + juros diários);
- Cláusula de vencimento antecipado (se atrasar X vezes, o banco pode exigir tudo de uma vez);
- Taxas de administração e seguros (quanto e quando pode aumentar).
Dicas Práticas para Não se Endividar
Dica 1: Não comprometa mais de 30% da renda
Se você ganha R$ 5.000 líquidos, parcela máxima deve ser R$ 1.500. Se o financiamento exigir mais que isso, não compre. Você precisa de dinheiro para viver, manter o imóvel, emergências.
Dica 2: Tenha reserva de emergência de 6 meses de parcelas
Antes de financiar, junte R$ 10.000-R$ 15.000 para emergências. Se perder o emprego, você tem tempo para se reorganizar sem perder o imóvel.
Dica 3: Use FGTS de forma estratégica
Use FGTS na entrada para diminuir o financiado. Ou amortize a cada 2 anos. Não deixe FGTS parado na conta enquanto paga juros altos no financiamento.
Dica 4: Prefira SAC ao Price
Se aguentar a parcela inicial, SAC sempre é melhor. Você paga menos juros e amortiza mais rápido. O Price é apenas “mais fácil no início”, mas muito mais caro.
Dica 5: Negocie a taxa e o CET
Bancos têm margem para negociar. Pesquise taxas em 3-4 bancos. Use uma proposta para pressionar outra. Negocie TAC, seguros, tudo. O primeiro preço nunca é o melhor.
Dica 6: Considere prazo menor (15-20 anos)
Próximo de 30 anos parece “mais leve”, mas você paga muito mais juros. Se conseguir pagar em 20 anos, economiza uma fortuna em juros.
Dica 7: Tenha plano B, C e D
E se perder o emprego? E se a taxa subir? E se precisar vender? Tenha planos alternativos. Imóvel financiado não é patrimônio, é dívida.
Dúvidas Frequentes Sobre Financiamento Imobiliário
Raramente. Bancos financiam no máximo 80% do valor. Exceção: imóveis do Minha Casa Minha Vida ou programas governamentais que permitem 100% financiamento para famílias de baixa renda.
Sim, mas você precisa quitar o financiamento no ato da venda. Se o saldo devedor for maior que o valor de venda, você precisa colocar dinheiro do bolso para fechar a conta com o banco.
SAC é melhor financeiramente (menos juros). Price é “mais fácil” no início (parcela menor). Se aguentar a parcela inicial, escolha SAC.
Não diretamente. Você pode usar para amortizar a dívida (reduzir parcela ou prazo) a cada 2 anos. Ou usar na entrada. Mas não pode usar mensalmente para pagar parcelas.
Multa de 2-4% sobre o valor da parcela + juros de mora (0,33% ao dia). Se atrasar 3 vezes seguidas, o banco pode acionar o vencimento antecipado (exigir tudo de uma vez) e iniciar processo de tomada do imóvel.
Consórcio não tem juros, mas tem incerteza (não sabe quando será contemplado). Se precisa comprar agora, financiamento. Se pode esperar, consórcio pode ser mais barato.
Sim, a qualquer momento. Amortização reduz o saldo devedor e pode manter a parcela (diminui prazo) ou reduzir parcela (mantém prazo). Antecipar parcelas é mais raro e geralmente não vale a pena.
Porque no começo do financiamento (especialmente Price), quase toda a parcela é juros. Só no final você começa a amortizar o principal. O banco recebe os juros primeiro.
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